Hermenêutica

A hermenêutica pentecostal e o contexto histórico

Por Craig Keener

A Escritura é mais do que texto, mas Deus forneceu-a em forma textual, o que nos convida a se envolver com ela textualmente. É verdade que não temos acesso às mentes dos antigos autores humanos. Mas o texto, juntamente com algum conhecimento do ambiente cultural, muitas vezes nos permite inferir, até certo ponto, os tipos de questões que o texto foi projetado a abordar. O contexto literário e histórico pode nos ajudar a entender melhor o texto. E eu pessoalmente acho que regularmente o Espírito me ajuda a usar esse conhecimento do contexto. Eu não encontro a vida espiritual no passado antigo, mas frequentemente encontro o Espírito usando esse pano de fundo para me ajudar a ouvir hoje o texto mais claramente. 

A interpretação gramatical e histórica é simplesmente uma maneira de descrever uma abordagem que, longe de ser um produto do modernismo, foi tomada como um senso comum por muitos pensadores durante a maior parte da história, incluindo Crisóstomo e muitos reformadores. Levar a sério o fato de que Deus repetidamente escolheu inspirar autores humanos exige que levemos a sério as dimensões humanas do texto – as matrizes linguísticas e culturais nas quais ele é codificado. Esses autores procuraram se comunicar, e se estamos realmente interessados ​​na Palavra de Deus do jeito que Ele deu através desses autores, procuraremos ouvir o que eles procuraram trasmitir. Até mesmo os desconstrucionistas aparentemente querem que os leitores entendam algo de seu ponto de vista, e os autores antigos dificilmente seriam desconstrucionistas.

Como cristãos, é claro, nós também acreditamos em outro nível de autoria, através da inspiração do Espírito (2 Tm 3.16).  Conhecer o contexto desse Autor também é importante, convidando-nos a considerar o contexto canônico e teológico mais amplo, bem como nossos relacionamentos corporativos e pessoais com Ele.  Acadêmicos normalmente descartam esse nível quando discutem textos em um fórum acadêmico que não tem consenso sobre a atividade divina. Mas quando ouvimos e falamos entre nós mesmos como cristãos, ouvindo a mensagem com fé, o contexto divino é o contexto mais importante de todos!

Os riscos quando se despreza o contexto histórico e gramatical das Escrituras

Seja o que for que Deus disser, isso não contradiz o que Ele já falou na Escritura; 
se os crentes não estão preparados para avaliar outros ensinamentos a partir das Escrituras, qual é o futuro das igrejas?  O liberalismo teológico como promulgado em universidades seculares onde muitos dos nossos jovens estudam?  O legalismo fundamentalista advindo de tradições locais?  A religião pop que circula em muitas livrarias cristãs e na Internet?  A fusão de direita religiosa com o nacionalismo ou a política partidária dominante em muitas mídias sociais cristãs?  Uma abordagem popular no Ocidente hoje está celebrando “tudo o que a Escritura significa para mim”, geralmente baseado em um repertório muito seletivo de textos e geralmente sem muita consideração pelo contexto. Nenhum de nós, estudiosos da Bíblia, recomenda isso. É por isso que apelamos para salvaguardas como o contexto literário, os antecedentes históricos, a teologia bíblica mais ampla e a comunidade cheia do Espírito. 

Muitos desses erros (da negligência com a interpretação) são refletidos por carismáticos independentes sem maiores esferas de responsabilidade, ou seja, sem comunidade.  Mas em 1989, Margaret Poloma mostrou que, embora as Assembleias de Deus e quase todos os seus estudiosos e professores tenham rejeitado oficialmente o ensinamento de que a fé sempre cura, mais de um terço da membresia assembleiana aceitava essa crença.  William Branham, Asa Alonso Allen, Kenneth Hagin, Jim Baker e muitos outros (líderes problemáticos) foram inicialmente membros de denominações pentecostais e tiveram grandes seguidores nessas igrejas. Ensinamentos contrabíblicos não são menos comuns fora dos círculos carismáticos: como a doutrina “uma vez orado sempre salvo”  ou a negligência generalizada dos ensinamentos de Jesus sobre o cuidado dos necessitados. Os seguidos de John MacArthur adotam a antipsicologia, a escatologia dispensacional e o cessacionismo.  Menos vocais, mas também espiritualmente letais, alguns pastores de qualquer tipo, talvez reagindo contra algum legalismo mais tradicional, não pregam contra a imoralidade sexual por medo de ofender alguém, não importa quantas vezes esse assunto surja nas cartas de Paulo. Mas em círculos preparados para responsabilizar os seus vieses como diretamente do Espírito Santo, novos erros parecem surgir mais rapidamente já que eles exigem menos precedentes históricos. 

Teologicamente, eu estou provavelmente próximo das Assembleias de Deus (menos na escatologia dispensacionalista), mas não ousei participar de uma igreja AD na minha região porque o pastor, embora verdadeiramente um homem de Deus, insistiu que os membros fossem leais ao criacionismo da terra jovem. Embora esse seja um erro trivial de interpretação bíblica, algumas coisas mais sérias têm acontecido em nosso meio. Por exemplo: Há pouco mais de um ano, uma jovem mãe morreu queimada durante um exorcismo em um culto pentecostal na Nicarágua, escandalizando todo o país. Alguns missionários da Assembleia de Deus na África, enfatizando a necessidade de mais ensino bíblico, observaram naquele continente um pastor local que dizia que a Bíblia nos ordena a levar a marca da besta sempre que quisermos comprar e vender algo. Um artigo de jornal missiológico relatou que um feiticeiro convertido à fé evangélica, achando o poder de Deus maior que seu poder anterior,  tornar-se um ‘bruxo do Espírito Santo’.

Esses exemplos extremos não são o pentecostalismo mainstream, mas temos que continuar iniciando novas escolas bíblicas precisamente porque é difícil, em muitos lugares, que o ensino acompanhe o crescimento da igreja. A maioria desses ensinamentos reflete leituras de textos que são infiéis aos contextos originais. Alguns líderes em treinamento bíblico pentecostal no Brasil e na Nigéria notaram para mim que muitos pentecostais estão retornando às denominações históricas por causa de ensinamentos inadequados ou errôneos em muitos círculos pentecostais. Embora eu acredite que Deus frequentemente use tal êxodo para trazer renovação a outras denominações, não é um estado de coisas que qualquer um de nós goste.

A leitura pós-moderna

O pós-modernismo extremo normalmente aceita fatos históricos, mas trata as narrativas como ficções; assim, levando em conta esse tipo de raciocínio, não se pode falar do “Holocausto” ou do “Apartheid”, mas pode-se falar apenas de muitos eventos individuais que compreendem categorias maiores. No entanto, o pós-modernismo está certamente correto quanto às diferentes perspectivas de diferentes locais de leitura. A subjetividade é inescapável.  Contra o pós-modernismo não teísta, confio que a perspectiva de Deus é correta, e que a história da salvação bíblica oferece uma metanarrativa.  É por isso que estou comprometido em pesquisar as Escrituras. Eu acredito que o significado autoral é importante: por exemplo, Paulo sob inspiração prontamente corrige algumas das interpretações errôneas de seus primeiros intérpretes de suas cartas (1 Co 5.9-13).  Mas admito prontamente que nossas próprias localizações sociais interpretativas finitas são limitadas e que nosso acesso a essa metanarrativa, além da mensagem básica do evangelho, é também limitada. O reconhecimento de Paulo de que, até vermos Cristo face a face, “sabemos em parte e profetizamos em parte”, convida-nos a uma séria humildade epistemológica.

É importante, para nossa melhor habilidade, ouvir tanto o texto em sua configuração original quanto sua mensagem para nós hoje. Este último deve ter alguma relação com o primeiro se quisermos reivindicar autoridade canônica para o que estamos dizendo. O Espírito nos impele não apenas com conhecimento factual, mas com o conhecimento íntimo e relacional de Deus. Que possamos crescer para andar nessa intimidade a cada momento de todos os dias.

Pequeno trecho do texto: Keener, Craig S. (2018). “Response to Reviews of Spirit Hermeneutics”, Journal of Pentecostal Theology27 (2), 222-244. 

images (3)Craig Keener é professor de Novo Testamento no Asbury Theological Seminary, no estado de Kentucky, Estados Unidos. Kenner estudou teologia na Duke University, na Central Bible College e no Assemblies of God Theological Seminary.  Em português já há algumas obras dele publicadas pela Editora Vida Nova: “Hermenêutica do Espírito”, “Amor Impossível”, “Comentário Histórico-Cultural da Bíblia- Novo Testamento”, “A Mente do Espírito”, “O Espírito na Igreja” e “O Espírito nos Evangelhos e em Atos”.

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