neopentecostalismo · Teologia Especulativa

Somos deuses? Ou como podemos entender o Salmo 82.6 e João 10.34?

images (65)Por Gutierres Fernandes Siqueira

Desde a década de 1970 alguns pregadores equivocados insistem na ideia que somos deuses. Segundo eles, quem segue a Deus se beneficia de uma espécie de “deificação”[1]. Assim, o crente “deificado” segue cada vez mais com poder para derrotar toda espécie de males, especialmente doenças e a pobreza. Mas será que a Bíblia ensina que somos deuses? O Salmo 82.6 diz: “Eu disse: ‘Vocês são deuses; todos vocês são filhos do Altíssimo” (NAA). A construção da frase parece bastante clara: Deus estaria declarando pelo salmista que somos deuses. Mas como podemos entender esse texto? A resposta está no seu devido contexto.

O salmo é atribuído ao levita Asafe, um músico e profeta que viveu durante o reinado de Davi (cf. 1 Cr 25.1). A linguagem do salmo, embora poética, encarna uma mensagem de juízo profético. O salmo começa informando que Deus assume a sua posição de juiz entre os deuses (v.1). Os “deuses” aqui são os magistrados de Israel. Asafe está exortando os juízes iníquos e orgulhosos de seu tempo. Nas culturas da antiguidade, aqueles que detinham o poder de julgar representavam os seus deuses. De certa forma, o profeta hebreu está usando uma linguagem comum daquele tempo para fazer um poderoso contraste poético. Eles, que eram “deuses”, morreriam como “simples mortais” (v.7 NAA). Há, aqui, uma fina ironia de mostrar ao mesmo tempo a opulência e a fragilidade dos juízes.  Embora essa seja a interpretação corrente, a tradição judaica entendeu a menção aos “deuses” nos versículos 1 e 6 em, pelo menos, quatro formas: juízes, anjos, Melquisedeque e Israel. Todas essas interpretações estão presentes no Midrash, que é gênero de literatura e da oralidade rabínica que contém as primeiras interpretações e comentários sobre a Torá.

Mas como entender a menção desse texto por Jesus em seu embate contra os judeus mencionado em João 10.22-42? Ao que parece Jesus usa esse texto para defender a sua divindade. É bom lembrar que esse trecho é de difícil interpretação. Em primeiro lugar, se a conotação é negativa, então por que Jesus usa o texto aparentemente em um sentido afirmativo? Em segundo lugar, Jesus estava usando qual das quatro interpretações do judaísmo rabínico sobre o Salmo 82? Ao que tudo indica, a resposta está, de fato, no Midrash. Jesus parece apelar à interpretação que enxergava no Salmo 82 a menção do recebimento da Lei no Sinai. Segundo essa interpretação:

Pensa-se que os antigos israelitas foram separados como deuses quando receberam a Torá no Monte Sinai. Mas o pecado deles com o bezerro de ouro fez com que se tornassem mortais mais uma vez (…) A característica que qualifica essas pessoas como deuses e as identifica como um grupo é o fato de que a Palavra de Deus havia chegado a elas. (…) Ainda segundo essa tradição, quando a Torá-Sabedoria foi rejeitada no Sinai pelos ingratos israelitas, ela rescindiu a imortalidade[2].

No versículo 33 Jesus diz que Ele é igual ao Pai e, ao ouvir isso, a multidão o acusa de blasfêmia. O foco de Jesus está mais na afirmativa e autoridade da Palavra do que nos “deuses” em si. Jesus diz:

Se ele chamou deuses àqueles a quem foi dirigida a palavra de Deus — e a Escritura não pode falhar —, então como vocês dizem que aquele que o Pai santificou e enviou ao mundo está blasfemando, só porque declarei que sou Filho de Deus? (35,36).

Jesus lembra que Ele é o cumprimento do testemunho profético do Antigo Testamento. Da mesma forma que Israel foi santificado (“deificado”) pelo recebimento da Lei, Jesus é a confirmação das promessas e profecias das Escrituras judaicas. Mas Ele, diferente de Israel, não descumpriu a Torá e permaneceu fiel e santificado ao seu propósito. Jesus não apenas cumpre a Lei, como Ele é o próprio Verbo (João 1.1). Mais do que uma interpretação literal, Jesus faz uma interpretação “espiritual” do Salmo 82[3].

É bom lembrar que independente da interpretação, Jesus está fazendo uma comparação onde Ele está mais “qualificado” para ser reconhecido como divino. Em momento algum o texto está ensinando que o cristão nascido de novo é divinizado. Nem mesmo o Salmo ensina isso. Pelo contrário, durante toda a Bíblia há advertências sobre a cultivação de deuses e ídolos (Ex 20.3; Dt 6.14; 29.26; 32.17; Sl 16.4 1 Jo 5.21 etc). A Bíblia não ensina nenhum processo de divinização, ao contrário, Paulo toma o exemplo de Cristo para nos ensinar o esvaziamento de si: “De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (cf. Fp 2.5-11).

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NOTAS:

[1] Mesmo a Igreja Ortodoxa Oriental, que ensina a teologia da deificação, indica que essa “deificação” é o processo de transformação de um crente que se assemelha a cada dia com Cristo, não em poder, mas em santidade e piedade.

[2] Ackerman, J. S. (1966). The Rabbinic Interpretation of Psalm 82 and the Gospel of John: John 10:34. Harvard Theological Review, 59(02), 186–191.

[2] “O Evangelho (de João) sustenta constantemente que a visão espiritual é necessária para ver o significado interno dos textos das Escrituras que Jesus cumpre (veja João 2.17, 22; 6.31; 8.56, 58, etc.)” NEYREY, Jerome. “I Said: You Are Gods”: Psalm 82:6 and John 10. Journal of Biblical Literature, Vol. 108, No. 4 (Inverno, 1989), pp. 647-663.

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