Apologética

Declaração de Hartford

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A “Declaração de Hartford” surgiu de uma conferência realizada na Fundação Hartford Seminary em janeiro de 1975. É um verdadeiro manifesto contra as teologias modernas escrito por teólogos conservadores, mas não fundamentalistas. A leitura vale muito a pena. Veja abaixo.

Introdução: A renovação do testemunho e da missão cristã requer um exame constante das suposições que moldam a vida da Igreja. Hoje, uma aparente perda do senso do transcendente está minando a capacidade da Igreja de abordar com clareza e coragem as tarefas urgentes para as quais Deus a chama no mundo. Essa perda se manifesta em vários temas difusos. Muitos são superficialmente atraentes, mas, examinando mais de perto, achamos esses temas falsos e debilitantes para a vida e a obra da Igreja. Entre esses temas falsos estão:

Tema Um: O pensamento moderno é superior a todas as formas passadas de compreensão da realidade e, portanto, é normativo para a fé e a vida cristã.

Ao repudiar este tema, estamos protestando contra o cativeiro das estruturas de pensamento predominantes não apenas do século XX, mas de qualquer período histórico. Favorecemos o uso de qualquer meio útil de compreensão, antigo ou moderno, e insistimos que o anúncio cristão deve estar relacionado com a linguagem da cultura. Ao mesmo tempo, afirmamos a necessidade do pensamento cristão de enfrentar e ser confrontado com outras visões do mundo, todas elas necessariamente provisórias.

Tema Dois: As declarações religiosas são totalmente independentes de um discurso racional.

A capitulação à suposta primazia do pensamento moderno assume duas formas: uma é a subordinação das declarações religiosas aos cânones da racionalidade científica; equiparando a razão à racionalidade científica, retirando completamente as declarações religiosas do âmbito do discurso razoável. A segunda, manifestada numa religião de pura subjetividade e não-racionalidade que resulta em tratar as declarações de fé como sendo, na melhor das hipóteses, afirmações sobre o próprio fiel. Nós repudiamos ambas as formas de capitulação.

Tema Três: A linguagem religiosa refere-se à experiência humana e nada mais, sendo Deus a mais nobre criação da humanidade.

A religião é também um conjunto de símbolos e até mesmo de projeções humanas. Repudiamos a suposição de que não é nada mais que isso. O que está aqui em jogo é nada menos do que a realidade de Deus: Nós não inventamos Deus; Deus foi quem nos inventou.

Tema 4: Jesus só pode ser entendido em termos de modelos contemporâneos de humanidade.

Este tema sugere uma inversão da “imitação de Cristo”, ou seja, a imagem de Jesus é feita para refletir noções culturais e contraculturais de excelência humana. Não negamos que todos os aspectos da humanidade sejam iluminados por Jesus. Com efeito, é necessário para a universalidade do Cristo que Ele seja percebido em relação às particularidades do mundo dos crentes. Nós repudiamos o cativeiro de tais metáforas, que são necessariamente inadequadas, relativas, transitórias e frequentemente idólatras. Jesus, juntamente com as Escrituras e toda a tradição cristã, não pode ser arbitrariamente interpretado sem referência à história da qual faz parte. O perigo está na tentativa de explorar a tradição sem levar a tradição a sério.

Tema 5: Todas as religiões são igualmente válidas; a escolha entre elas não é uma questão de convicção sobre a verdade, mas apenas de preferência pessoal ou estilo de vida.

Nós afirmamos a nossa humanidade comum. Afirmamos a importância de explorar e enfrentar todas as manifestações da busca religiosa e de aprender com as riquezas de outras religiões. Mas repudiamos este tema porque aplana as diversidades e ignora as contradições. Ao fazê-lo, não só obscurece o significado da fé cristã, mas também não respeita a integridade de outras religiões. A verdade é importante; logo, as diferenças entre as religiões são profundamente significativas.

Tema 6: Realizar o próprio potencial e ser fiel a si mesmo é todo o significado da salvação.

A Salvação contém uma promessa de realização humana, mas identificar a salvação com a realização humana pode banalizar a promessa. Afirmamos que a salvação não pode ser encontrada além de Deus.

Tema 7: Uma vez que o que é humano é bom, o mal pode ser adequadamente compreendido a fim de realizar o potencial humano.

Este tema convida à falsa compreensão da ambivalência da existência humana e subestima a abrangência do pecado. Paradoxalmente, ao minimizar a enormidade do mal, ele mina os ataques sérios e sustentados contra determinados males sociais ou individuais.

Tema 8: O único objetivo do culto é promover a autorrealização individual e a comunidade humana.

A adoração promove valores individuais e comunitários, mas é, sobretudo, uma resposta à realidade de Deus e surge da necessidade fundamental e do desejo de conhecer, amar e adorar a Deus. Adoramos a Deus porque Deus deve ser adorado.

Tema 9: As instituições e tradições históricas são opressivas e hostis ao nosso ser verdadeiramente humano; a libertação delas é necessária para uma existência autêntica e uma religião genuína.

As instituições e as tradições são muitas vezes opressivas. Por esta razão, devem ser sujeitas a críticas incessantes. Mas a comunidade humana exige, inevitavelmente, instituições e tradições. Sem elas, a vida degeneraria em caos e novas formas de escravidão. A moderna busca de libertação de todas as restrições sociais e históricas é definitivamente desumanizante.

Tema 10: O mundo deve definir a agenda da Igreja. Programas sociais, políticos e econômicos para melhorar a qualidade de vida são, em última análise, normativos para a missão da Igreja no mundo.

Este tema atravessa o espectro político e ideológico. Sua forma permanece a mesma, não importa se o conteúdo é definido como sustentando os valores do modo de vida americano, promovendo o socialismo ou elevando a consciência humana. A Igreja deve denunciar os opressores, ajudar a libertar os oprimidos e procurar curar a miséria humana. Às vezes a missão da Igreja coincide com os programas do mundo. Mas as normas para a atividade da Igreja derivam de sua própria percepção da vontade de Deus para o mundo.

Tema 11: Uma ênfase na transcendência de Deus é pelo menos um obstáculo e talvez incompatível com a preocupação e ação social cristã.

Essa suposição leva alguns a denegrir a transcendência de Deus. Outros, mantendo uma falsa transcendência, retiram-se para o privatismo religioso ou individualismo e negligenciam a responsabilidade pessoal e comunitária dos cristãos pela cidade terrena. De uma perspectiva bíblica, é precisamente por causa da confiança no Reino de Deus sobre todos os aspectos da vida que os cristãos devem participar plenamente da luta contra estruturas opressivas e desumanas e suas manifestações no racismo, na guerra e na exploração econômica.

Tema 12: A luta por uma humanidade melhor trará o Reino de Deus.

A luta por uma humanidade melhor é essencial para a fé cristã e pode ser informada e inspirada pela promessa bíblica do Reino de Deus. Mas os seres humanos imperfeitos não podem criar uma sociedade perfeita. O Reino de Deus supera qualquer utopia imaginável. Deus tem os seus próprios desígnios que confrontam os nossos, surpreendendo-nos com o juízo e a redenção.

Tema 13: A questão da esperança para além da morte é irrelevante ou, na melhor das hipóteses, marginal para a compreensão cristã da realização humana.

Esta é a capitulação final do pensamento moderno. Se a morte é a última palavra, então o cristianismo não tem nada a dizer sobre as questões finais da vida. Acreditamos que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos e somos “porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Romanos 8.38-39).

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