Assembleia de Deus · Pietismo

As origens pietistas da Assembleia de Deus do Brasil

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A história do Movimento Pentecostal possui inúmeras nuances. Sabemos que o pentecostalismo sofreu a influência de diversas correntes teológicas, mas normalmente o enfoque historiográfico é acentuado no metodismo. Embora o metodismo tenha exercido um grande papel na história do pentecostalismo mundial, no caso das Assembleias de Deus do Brasil essa influência não foi maior que a do pietismo escandinavo. Em recente artigo no jornal Mensageiro da Paz, o historiador Isael de Araújo nos chama a atenção para as raízes assembleianas, enfatizando especialmente o papel dos batistas suecos em nossa história (1). Na esteira desse artigo, quero neste texto apontar as marcas pietistas nas Assembleias de Deus.

O pietismo foi o primeiro e o maior movimento de renovação da Reforma Protestante. Ele nasceu como uma crítica à ortodoxia protestante, meramente cerebral e preocupada com minúcias doutrinárias, mas sem foco na vida espiritual. Um dos primeiros pietistas, Pierre Poiret (1646-1719), intitulou o seu livro de Teologia do Coração. O pietismo não pode ser lido como um movimento uniforme. O pietismo alemão, por exemplo, teve mais apoio da elite política e intelectual do que o pietismo escandinavo. Na Suécia, país de origem dos missionários Gunnar Vingren e Daniel Berg, a Igreja Luterana exercia forte pressão contra os pietistas, especialmente os chamados “pietistas radicais”, a saber, aqueles que não estavam dentro da denominação oficial – como era o caso dos batistas. Embora alguns intelectuais e clérigos fossem ligados ao pietismo escandinavo, a maior parte dos seus adeptos era pobre e iletrada (2).

Dentre os diversos grupos pietistas da Escandinávia, vale ressaltar o laestadianismo. O sueco Lars Levi Læstadius (1800-1861) exerceu forte influência no pietismo escandinavo do século XIX, o que afetou os primeiros pentecostais daquele país (3). Uma marca muito forte do pietismo laestadianismo era a preocupação radical em obedecer aos usos e costumes, ou seja, regras não escritas como sinais de santidade (4). Entre essas regras estava a proibição de maquiagem, a aversão ao entretenimento, a rejeição de bebidas alcóolicas e músicas não religiosas, entre outras normas rígidas. Outro costume dos laestadianos era a confissão pública dos pecados, um modo de realçar o sacerdócio universal de todos os crentes, já que o perdão de pecados era um ato da congregação, e não apenas do ministro (5). Os laestadianos cultivavam a prática da saudar outros irmãos com “paz de Deus” (6). Eles ainda exerciam atividades carismáticas e praticavam experiências com dons espirituais, incluindo a cura divina (7).

Todos esses costumes e comportamentos influenciaram a Assembleia de Deus no Brasil. Até hoje em algumas congregações assembleianas, especialmente no Nordeste do país, os membros fazem a confissão pública de pecados no culto da Ceia. Outras igrejas ainda mantém a visão restritiva sobre o entretenimento, adornos e maquiagens. A saudação com a “paz do Senhor” é uma marca na cultura assembleiana e está presente em todas as igrejas.

O melhor legado do pietismo é a centralidade de uma vida marcada pela piedade e a prática da oração, além de um amor pelas Sagradas Escrituras. O pietismo evita um cristianismo meramente cognitivo, embora, evidentemente não despreze o conhecimento. Do pietismo escandinavo, a Assembleia de Deus herdou inclusive o fervor litúrgico. Do legado negativo, ainda presenciamos algumas igrejas marcadas pelo legalismo nos usos e costumes. 

PS: Este texto é apenas um trecho de um artigo maior a ser publicado

images (5).

Referências:

(1) ARAÚJO, Isael de. Raízes do Pentecostalismo Brasileiro. Mensageiro da Paz, CPAD, Janeiro de 2020, p. 21.

(2) Sobre isso, veja o instrutivo artigo: GREEN, Todd. Swedish Pietism (1700-1727) as Resistance and Popular Religion. Lutheran Quarterly. Volume XXI (2007). pp 59-77.

(3) Læstadius foi uma das influências de Lewi Pethrus, nome de referência no pentecostalismo sueco. Veja: DAVIDSSON, Tommy. Lewi Pethrus’ Ecclesiological Thought 1911-1974. 1 ed. Leiden e Boston: Brill, 2016. p 19. 

(4) LAMPORT, Mark (ed.). Encyclopedia of Martin Luther and the Reformation. Volume 2. 1 ed. Lanham: Rowman & Littlefield, 2017. p 406.

(5) HILLERBRAND, Hans J. Encyclopedia of Protestantism: 4-volume. 1 ed. Nova York: Routledge, 2004. p 1048.

(6) GJESSING, Gutorm. Laestadianism: A Revivalistic Saamish (Lapp) -Finnish Movement for National Liberation. Ultimate Reality and Meaning  Journal. 1979. pp. 188-204.

(7) WILSON, Sarah H. A Guide to Pentecostal Movements for Lutherans. 1 ed. Eugene: Wipf and Stock Publishers, 2016. p 29.

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