Antigo Testamento · Teologia

A ira de Deus e o Cononavírus  

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Painel central do tríptico de Memling: O Último Julgamento (entre 1467 – 1471).

 

Por Gutierres Fernandes Siqueira 

A doutrina da ira de Deus não é muito popular entre os adeptos da espiritualidade de autoajuda do nosso tempo e, também, não era entre os expoentes do liberalismo teológico. O tema é pesado até quando ouvimos o hino Dies Irae tocado em uma orquestra. O teólogo norte-americano H. Richard Niebuhr (1894 – 1962) definiu o Evangelho Social com uma frase que ficou bem famosa: “Um Deus sem ira trouxe homens sem pecado para um reino sem julgamento, mediante as ministrações de um Cristo sem uma cruz” (1). No outro extremo, especialmente na tradição evangélica, a ira de Deus é muitas vezes retratada de maneira sádica e leviana. Praticamente em todas as tragédias naturais ou não-naturais é possível ouvir muitos expoentes evangélicos dizendo que tal acontecimento é a própria manifestação da ira de Deus.  Mas será que podemos ser tão rápidos em apontar o juízo a cada tragédia?

A Bíblia nem apoia a ideia de um Deus desprovido de ira e nem abre espaço para a sentença que toda tragédia é a manifestação da ira divina, embora, é claro, todo mal seja fruto da desordem provocada pelo pecado original. Nas Escrituras, a ira de Deus não é equivalente ao homem iracundo: “A ira humana não produz a justiça de Deus” (Tg 1.20 NAA). Enquanto a ira humana é um produto da paixão descontrolada e não temperada pelo fruto do Espírito – como indica a literatura de sabedoria (Pv 14.29; 16.32; 19.19; 29.22; 30.33; Ec 7.9); a ira de Deus é uma manifestação de justiça e equidade sem qualquer impulso descontrolado – é a justa indignação (Na 1.2).  

No paganismo, pelo contrário, os deuses muitas vezes se exaltavam, embriagavam-se, agiam arbitrariamente e ficavam nervosos sem nenhuma razão aparente e, por esse motivo, os homens precisavam oferecer ofertas de sacrifício a esses ídolos visando o aplacamento de sua ira – como era o caso dos profetas de Baal e dos atenienses em 1 Rs 18.1-40 e At 17.16-34. Na mitologia suméria, por exemplo, o deus Enlil resolveu, junto com outros deuses, destruir todos os homens por meio de um dilúvio. O motivo? A raça humana havia crescido muito e o seu ruído mantinha o deus Enlil com insônia.  Na cabeça de muitos evangélicos, infelizmente, o Deus das Escrituras é um tanto intempestivo e caprichoso como os ídolos das religiões pagãs. Todavia, vale lembrar, em Israel não existia encantamentos ou magias para a proteção contra a ira do Senhor. E, diferente do paganismo, a ira de Deus não era freada pela a ação de outros deuses ou mesmo com os sacrifícios dos homens, mas pelo tempero de Sua própria misericórdia (Êx 34. 6; Nm 14.18; Sl 103.8; Jn 4.2). A ira, embora justa, não é do deleite de Deus e é usada apenas dentro da necessidade do ordenamento da justiça. A ideia que Deus se regozija em condenar é estranha às Escrituras (cf. Lm 3.33; 1 Tm 2.4).  

A doutrina do juízo é bem presente em toda a Escritura, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Essa perspectiva de um juízo final nos livra de qualquer otimismo ingênuo em uma salvação universalista. Muitos homens, infelizmente, serão condenados não porque Deus não queira salvá-los, mas apenas porque são obstinados e teimosos e acumulam sobre si uma porção maior da ira de Deus (cf. Rm 2.5). A ira não é impessoal, ou seja, essa palavra não descreve apenas um processo de causa e efeito, mas retrata uma característica do próprio Deus como um Ser completamento justo (Rm 3.5; 9.22, 12.19 e 1 Ts 5.9).  No Novo Testamento, tanto Paulo como João olham a ira de Deus numa perspectiva escatológica, o Dia do Senhor, mas com reflexos no presente (ex. Ap 6.16-17). A ira do Cordeiro sempre visa o arrependimento (Ap 9.20; 16.9). 

Concluo lembrando dois episódios no ministério de Jesus. Os textos são João 9.1-3 e Lucas 13.1-5. Em ambos Jesus quebra qualquer especulação sobre a execução do juízo diante de duas tragédias – uma individual e outra coletiva. Embora, obviamente, muitas tragédias sejam indicativos do juízo divino sobre os homens, a prudência de Jesus nos incentiva a não especular sobre isso a cada notícia que lemos. O nosso foco deve ser no nosso próprio arrependimento. Cada notícia ruim que ouvimos pode não ser um juízo cósmico, mas como certeza é um sinal sobre a nossa própria finitude e a necessidade de quebrantamento constante.  

Referência: 

(1) NIEBUHR, Richard. The Kingdom of God in America. 1 ed. New York: Harper & Row, 1959, p. 193. 

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